Projetos

2010

Mar [Livro]

O livro de água



A carne é triste, sim, e eu li todos os livros. Fugir! Fugir! [...] Nada, nem os jardins dentro do olhar suspensos,
Impede o coração de submergir no mar Ó noites! nem a luz deserta a iluminar Este papel vazio com seu branco anseio [...]
Vapor a balouçar nas vagas, Ergue a âncora em prol das mais estranhas plagas!

Mallarmé, Brisa Marinha¹


Estaria o mar contido no livro? Ou o inverso? E, de fato, um pode conter, reter o outro? Talvez, apenas na medida em que ambos se reconheçam maleáveis o suficiente para moldarem suas formas. Ainda assim um como o outro, afigura-se infinito com seu ir e vir de páginas ou vagas.

É bem verdade que este introito não faz jus ao trabalho de Gilberto Mariotti, ao arriscar um paralelismo reducionista daquilo que seu livro é. A rigor, o problema maior consiste em averiguar como uma coisa pode se tornar visualmente viável, ou seja, o que é traduzir um objeto em forma atento aos confins desta última. No correr de suas páginas, nas quais a imagem da crispação cresce e depois some, constrói-se o livro necessariamente impossível. Usar tal expressão para descrevê-lo não pretende recair nem na mitologia da obra absoluta em sua ambição, nem no seu oposto (igualmente mitificado) da “estética do possível” que converteu-se em um chavão na virada de século., mas assinalar que todo trabalho artístico envolve uma parcela consciente e positiva de absurdo lúcido, ao conquistar para o terreno da visibilidade aquilo que, mesmo perceptível (ou não, se quisermos conferir uma dimensão metafísica à arte) resiste a ser “formalizável”.

Por livro impossível, queremos entender dois movimentos simultâneos ali presentes: um primeiro, como enunciamos acima, o de resolver a imagem de algo que aparentemente se insinuaria arredio a um sistema visual. Em outras palavras, o mar é tão incomensurável quanto o céu. Mariotti tentaria em relação ao primeiro uma manobra análoga àquela a que os pintores renascentistas recorreram com a invenção da perspectiva aérea, simulando uma dimensão limitada do infinito, fazendo-o assim caber no quadro. Em seu caso, diríamos que isso se traduz em uma primeira decisão – o mar se converte em imagem. Aqui, o fato dele ter um vestígio representacional é quase uma “circunstância”, pois sua silhueta é sobretudo decorrente de dois aspectos estruturais: um é o “desenho indicial”(ao qual retornaremos logo adiante); o outro , a “extensão circular” do livro, cuja página inicial e final se intercambiam, conforme o leitor / espectador decida por onde começará a folheá-lo.

Determinar a equivalência entre o mar e a dinâmica das imagens implica lidar com escalas que senão incoercíveis (se, considerando a situação contemporânea da imagem, ela alcançar um patamar quantitativo próximo do incalculável), tenderiam a ser inconformáveis, dada sua fluidez ou progressão crescente. Uma imagem, como um copo d’água é sempre um aprisionamento fugaz daquilo que escorre, que escapa e nos faz lembrar da passagem do tempo (o mar é eterno, não começa nem termina, não se recolhe no fim da tarde; nós, objetos retratáveis, somos perecíveis). Assim, há na equação entre mar e imagem uma outra traduzível como forma x imagem, permanência e perda, na medida em que se perfaz a tarefa de fixar visualmente algo cuja natureza é uma recusa a estática. Considerado sob esse aspecto, os desenhos indiciais, gerados a partir de cópias feitas à carbono são decisivos na consecução desse método de formalização, uma vez que, ao fazerem coincidir desenho e geração imediata de imagens, paradoxalmente registram em seu caráter residual a referida fugacidade do tempo e da forma (a imagem se enuncia como resíduo de algo; aqui deste desenho original “perdido”, do qual só resta sua cópia siamesa). Que o livro se narre por um crescendo dado pela sucessão ondulante de cada folha, não só espelha a lógica segundo a qual o livro de Mariotti constitui sua narrativa neste imbricar entre método e sua materialização formal, mas faz-nos lembrar o nexo entre uma consciência temporal e espacial acentuada pela poesia desde os emblemáticos Coup de dés, de Mallarmé e dos caligramas de Apollinaire., que nos reinventaram como leitores visuais, leitores espectadores. Seria seu trabalho um livro-caligrama? Esta resposta caberá ao leitor, após reter em suas mãos estas águas de papel.

¹ Tradução de Augusto de Campos

Guilherme Bueno