Projetos

2009

Monumetria [Publicação]
 
     


Monumetria
por Delenguaamano

A especificidade do projeto Monumetria se dá pela reflexão sobre a especificidade do Monumento a Ramos de Azevedo. O deslocamento sofrido por este último revela a tensão entre os significados que carregava e as necessidades de reestruturação urbana que levaram à sua remoção. De seu deslocamento e de seus desdobramentos, fica a questão: o quê e o quanto pode este processo de transferência revelar sobre a condição de adaptabilidade requerida à produção artística que hoje se encontra orientada para a especificidade? 

Monumetria propõe-se a interagir simultaneamente com dois campos de atuação: o da arte contemporânea, enquanto espaço pré-delimitado para intervenções que se querem críticas em relação a instituição, e a museologia, enquanto campo dos procedimentos relativos ao arquivo, exposição e registro. Ambos parecem ter trocado questionamentos e modos de operar entre si. Contudo, ambos têm mantido seus limites de atuação em grande parte das situações, a fim de manter seu status no funcionamento cultural: a museologia resguarda sua posição técnica para que prevaleça a influência que exerce na estrutura do museu, e a produção artística contemporânea muitas vezes se contenta em exercer pontualmente a função de elaborar ironias que nem sempre são reveladoras de contradições das estruturas nas quais intervêm.

Como então trabalhar com estes dois campos e com quais objetivos? Como a sobreposição destes procedimentos pode significar algum ganho?

Num primeiro posicionamento, esta opção significa negar-se a ocupar espaços pré-delimitados. Inserir-se em meio àquilo que geralmente é considerado secundário ou cenográfico. Entender os meandros da instituição como um lugar em si. Entender todos os elementos do patrimônio e instâncias envolvidas no projeto (monumento, documento, museu, projeto arquitetônico, obra de arte) em uma concepção própria de espaço público. Propor, como espaço de encontro entre múltiplas noções do público, a discussão fundamentada no choque de fluxos provenientes de âmbitos e níveis heterogêneos, colocando os atores deste espaço no centro do conflito, como seus ativadores.

Mas inserir-se, desde que se possa manter a tensão própria das relações que edificam o espaço institucional. Desde que, de alguma forma, se revelem contradições entre estes campos, por meio de sua contraposição.

Esta publicação não se propõe a ser o registro que representaria Monumetria, como memória póstuma. Antes se assume como lugar da obra. Não bastando servir como forma de transmissão e reminiscência do projeto, deve ser seu desdobramento na instância gráfica, com a especificidade de suas possibilidades materiais e expressivas. Reitera, neste outro momento do projeto, a postura que abdica de uma suposta transparência do registro e entende sua linguagem como campo transformador, dando continuidade à reflexão acerca da produção de memória e seus meios, não limitada ao tempo e espaço das Intervenções na Pinacoteca.