Projetos

2000

carbonos
       

A Reunião


A reunião realizou-se em uma tarde de dezembro, 2001. A finalidade do encontro era conversar informalmente com os artistas participantes do e(x)tra oscar freire e averiguar os procedimentos de criação e execução dos trabalhos, assim como assuntos pertinentes à arte contemporânea entre os quais a descontinuidade da imagem (Lia Chaia), a sequencialização narrativa como forma compositiva (Paula Ordonhes) e a questão da representação (Gilberto Mariotti).

A discussão centrou-se nesse último item e na renovação do sistema artístico. O trabalho de mariotti (Mar, 2001, impressão de carbono sobre tela, 160x220 cm) mostrava uma tela branca para a qual haviam sido transferidas a carbono linhas que construíam uma “paisagem” - o mar. Apesar de as figuras e a temática relacionarem-se as coisas do mundo natural, o artista trabalha com um grau mínimo de iconicidade. A fatura da obra não cria um efeito ilusionístico de parecer igual à realidade - o espaço não é perspectivado e o cromatismo não obedece a uma modulação tonal característica da pintura naturalista, que busca reconstruir a aparência volumétrica dos objetos reais. Os recursos práticos que dão forma à obra de Mariotti resumem-se nas linhas fragmentadas que flutuam soltas no plano da tela e na cor azul-escura do papel carbono.São essas coordenadas plásticas que compõem a construção da obra do artista, e o observador em seu fazer interpretativo reconhece, nessas figuras de expressão, aquilo que por seu saber cognitivo, correlaciona às ondas do mar. Assim, em vez de representar uma paisagem que imita o mundo real, mariotti mostra que são os próprios referentes internos ao sistema pictórico os elementos que constituem a referencialização de sua pintura. Todo sistema tem suas invariantes, mas a diversidade das condições contextuais faz com que o emprego desses elementos seja reorganizado em novos arranjos formais, os quais condicionam a renovação dos modos de fazer e de ver a arte contemporânea.   


Nancy Betts