Projetos

2010

mariantonia
       


A proposta de ocupação para a chamada ‘salinha’ do Maria Antonia aponta para algumas novas questões orientando a fatura de Gilberto Mariotti. Sua produção, essencialmente centrada em aspectos internos caros a linguagem pictórica, e seus códigos de representação sinalizam agora para uma expansão de interesses na práxis do artista. Um aspecto que vinha se apresentando de modo até certo ponto discreto na pintura mais recente de gilberto ganha força na ocupação que ora realiza: a discussão acerca do (espaço) público e privado.

Uma faixa, pintada em um matiz cuidadosamente rebaixado, envolve a parte inferior das paredes do exíguo recinto, procedimento que se estende e também põe em evidência uma area originalmente correspondente à janela que habitava o local. Apoiada numa parede, uma tela, ‘pintura de fato’ em preto e branco, onde se vê representada em lareira - a um só tempo encarnação de um arquétipo de domesticidade e fogo morto. Na parede oposta, uma moldura contendo uma folha de papel-carbono intacta, convidando à contemplação de algo que afinal não se vê. A pronta associação às características desse material, como duplicação e registro de uma permanência, sa mostra tanto ineficaz como potencializada pelo incerto status de objeto de arte que ali ostenta.

A partir destes elementos, e das relações de oposição e complementaridade simbólica que os mesmos suscitam, o artista desencadeia o que se pretende um processo de reflexão sobre a dinâmica de ocupação institucional pela arte, ‘e vice-versa’. Sem abandonar as questões que lhe são caras, Gilberto elabora, a partir do contexto algo problemático do local (sala) que ocupa, um jogo de tensões que procura evidenciar a natureza não raro conflituosa entre espaços expositivos e a produção que abrigam. O artista faz do embate entre essas instâncias a própria matéria do trabalho - e de modo sutil, elegante e incisivo.


Guy Amado